O Melhor Site de Trabalhos da Internet


A Colonização Espanhola


Desde os primeiros movimentos de colonização na América Espanhola é possível constatar a presença da influência do clero e das ordens religiosas na Região. Ao longo do tempo a constituição do clero passou a sofrer divisões internas no novo mundo, havendo de um lado o Alto Clero constituído por hispânicos e do outro lado, o Baixo Clero formado em sua maioria por crioulos. Sem dúvida o grupo representante da Igreja Católica na América Hispânica dispunha de uma série de benefícios, dentre eles estão as regalias fornecidas pela coroa espanhola como, por exemplo, a imunidade clerical, cobrança de taxas e a possibilidade de arrecadar bens. Diante desse quadro de divisão interna da igreja católica e dos fortes laços que foram estabelecidos com a Coroa Espanhola, é possível se perguntar: Qual grupo político a Igreja Católica apoiou durante as lutas emancipatórias na América Hispânica? Os Realistas ou os Revoltosos?

 

Segundo Bethell nas lutas de independência da América espanhola tanto para os Realistas que estavam a serviço da Coroa quanto para os revoltosos, fazia-se importante buscar o apoio ideológico da Igreja. As inter-relações estabelecidas entre o Estado Espanhol e a Igreja se perfaziam principalmente através do Patronato Real, no qual o rei Espanhol tinha plenos poderes para nomear os bispos e consequentemente, submetê-los ao poder real. Sendo assim, os bispos que se mostravam simpatizantes às ideias liberais eram obrigados a retornar para metrópole ou sofriam a destituição das dioceses.

 

Mesmo assim, alguns bispos simpatizantes ao movimento dos revoltosos ou simplesmente oportunistas, constituído principalmente pelo baixo clero, passaram a apoiar a possibilidade de um governo autônomo e independente na América Hispânica. É importante perceber que esse apoio está embasado na própria divisão interna da igreja entre os padres, marcada pelas diferenças econômicas e sociais entre o alto e o baixo clero, além do ressentimento gerado pelo monopólio dos eclesiásticos em relação aos postos mais altos da Igreja.

 

Com a retirada dos benefícios eclesiásticos baseados nas “capellanías” e no “fuero eclesiástico”, alguns padres começaram a se destacar na luta pela independência, dentre eles estão Miguel Hidalgo e José Morelos. Através do apoio desses padres os revoltosos tiveram o apoio religioso necessário para fundamentar sua independência, tendo em vista que como principal símbolo do movimento de independência estava a Virgem de Guadalupe como santa padroeira da revolução.

 

Muitos dos padres que participaram dos movimentos de libertação na América hispânica foram executados, inclusive Hildalgo e Morelos, porém o que se observa é que o papado em diversos momentos manteve sua aliança com a Coroa. Já o Vaticano apresentou-se numa posição ambígua, em um primeiro momento se manteve neutro como forma de garantir o “bem-estar” espiritual de seus fies, mas durante o papado de Pio VII o Vaticano buscou estabelecer laços com os revoltosos, através do envio de missões ao Chile, porém com o Papa Leão XII o apoio à Coroa em oposição aos revoltosos foi restabelecido.

 

No período pós-independência a Igreja Católica na América Hispânica havia se enfraquecido, visto que a queda da monárquica resultou na perda dos antigos privilégios dos quais o clero já estava habituado. Os chefes do movimento de independência realizaram um afastamento intelectual da igreja, buscando uma legitimação para seu governo baseada na razão e não mais em uma fundamentação teológica. Os governos mais liberais começavam a demonstrar sinais de anticlericalismo e durante muito tempo algumas dioceses permaneceram vagas. Só a partir de 1835 é que as relações políticas com as repúblicas hipano-americanas passaram a ser retomadas.

 

Também no período pós-revolucionário a vocação religiosa passa a ser menos atraente e consequentemente menos procurada, além disso, muitos membros do clero morreram enquanto outros retornaram à Espanha. O patrimônio da Igreja ficou seriamente debilitado, havendo o confisco e venda de suas propriedades. Outro motivo responsável pelo enfraquecimento da Igreja Católica na América Espanhola foi a adoção da tolerância religiosa, que com o apoio da Inglaterra, o protestantismo foi introduzido pelos comerciantes e artesãos estrangeiros que se fixaram nas cidades portuárias. A adoção de uma tolerância religiosa também estava relacionada à intenção dos liberais em afirmar a supremacia do Estado secular, defender a liberdade de pensamento e, sobretudo, diminuir o poder temporal e a influência da Igreja.  

     

Por fim, é perceptível que a Igreja Católica se apresenta constantemente numa posição ambígua no tocante às lutas emancipatórias na América espanhola, tendo em vista que se em um primeiro momento o clero que estava bastante ligado à Coroa, começa a se distanciar com a perda de suas regalias e até mesmo começa a estabelecer relações com as repúblicas hispano-americanas no período pós-independência.

 

Além disso, é importante ter em mente a divisão interna da Igreja, gerada pelo descontentamento da divisão das funções eclesiásticas, estando as de maior prestígio sob controle do alto clero composto por cidadãos hispânicos na América espanhola, enquanto que o baixo clero formado em sua maioria por crioulos, como forma de insatisfação davam apoio às elites crioulas que tentavam garantir sua independência, contribuindo principalmente por atrair os grupos que formavam a população pobre, como os mestiços e índios, para participar dos movimentos de libertação.