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Os Conteúdos Escolares
No tocante à didática com relação aos conteúdos escolares é possível estabelecer uma distinção clara entre a didática prática e a didática teórica. Tendo em vista que segundo a didática teórica, é o professor quem seleciona, organiza e apresenta o conteúdo que será trabalhado aos alunos. Essa tarefa como papel do professor, deve ser realizada no momento em que se está elaborando o seu plano de ensino, sendo os conteúdos cuidadosamente selecionados e organizados de forma criteriosa. E mesmo havendo distinções nessa seleção e organização de conteúdos, segundo Martins é possível pensar os conteúdos enquanto princípios, conceitos e conhecimentos acumulados pela experiência humana. Portanto, uma vez que estes conteúdos são produzidos social e historicamente, devem ser sistematizados cientificamente, e cabe a escola esse papel de veicular o saber sistematizado.
Sabendo que a seleção dos conteúdos que serão trabalhados em sala de aula não é uma tarefa fácil, alguns fatores como a estrutura lógica da matéria, as condições psicológicas para a aprendizagem bem como as necessidades econômicas e socioculturais devem ser levadas em consideração no momento em que o professor for estabelecer o que será ensinado.
Ao definir os conteúdos, deve o professor estar atento à uma organização seqüencial ou seja, a seqüência lógica, a gradualidade na distribuição, a continuidade e a interligação do conteúdo entre as diversas disciplinas do currículo. Alguns autores sugerem o “mapeamento de informações”, ou seja, categorizar as informações necessárias para a aprendizagem de um determinado assunto. Já outros autores consideram o “mapeamento dos conteúdos” consistindo numa série de conceitos e princípios relacionados de forma lógico-sistemática.
É importante salientar que a função de selecionar os conteúdos não deve ser confundida com a mera listagem dos conteúdos ou a simples reprodução do índice do livro didático, pelo fato de que a apresentação desses conteúdos exige uma articulação de forma orgânica e dinâmica. Além disso, o professor tem que atentar para a flexibilização ao montar o programa, acompanhando o ritmo de cada turma.
De modo geral fica claro que na teoria é papel do professor determinar, selecionar, organizar e trabalhar os conteúdos em sala de aula, seguindo critérios específicos para esse fim, segundo a realidade social dos seus alunos. Porém quando se observa a realidade na didática prática, essa função do professor ocorre de maneira diferente.
Na didática prática se percebe que o programa dos conteúdos é muitas vezes imposto pela escola e não pode ser de forma alguma alterado. Os conteúdos estão todos definidos no plano escolar e por diversas vezes colocados como “cópias” do índice dos livros didáticos adotados, prevalecendo a quantidade dos conteúdos ao invés da qualidade. E o que se faz de freqüente motivo de reclamação dos professores é a disparidade entre o conteúdo programático imposto e a realidade vivenciada pelos alunos, dessa forma, grande parte do conteúdo não será utilizado na vida prática do aluno devendo, portanto, ser excluído do programa.
É importante o professor ter em mente que por diversas vezes o conteúdo determinado pela escola é definido enquanto uma produção de interesses, representando uma classe, desconsiderando os conflitos e contradições sociais, portanto, caberá neste caso ao professor adaptar o conteúdo que será ministrado em sala, mesmo sabendo que o programa está defasado em relação às necessidades dos alunos e que só é interessante para os alunos aprender conteúdos que lhes auxilie na resolução de problemas e conflitos emergentes do seu cotidiano.
Segundo Nedelcoff ao determinar os conteúdos que farão parte do processo escolar, deve-se observar a atuação do educador enquanto agente capaz de atuar na mudança social ou na manutenção da estrutura social vigente, analisando de que maneira ele estará trabalhando os conteúdos com seus alunos, seja de forma crítica ou acrítica. Sendo assim, uma questão trazida pela autora é o problema das sub-culturas e o da ideologia.
Partindo da crença que dentro de uma cultura existe uma grande variedade de condutas e modalidades, correspondendo as diferentes classes às quais alguém pertence ou as diversidades das regiões onde se vive, correspondendo à “sub-cultura”, é freqüente que por diversas vezes o livro didático traga a realidade de uma classe dominante que transmite seus posicionamentos culturais entendidos como “verdades” ao passo que inibe as manifestações de culturas tidas como provindas de grupos “inferiores”.
E muitas vezes o papel da escola se perfaz através da mera reprodução de uma cultura “oficial” tida como burguesa sem a realização das críticas devidas ou sem realizar a exposição de outras culturas “não-oficializadas”. Este posicionamento “burguês” da escola pode se exteriorizar através da supervalorização do livro, de que tudo que está no livro didático é o certo e é o necessário para se obter uma aprendizagem completa. Idéias atreladas ao individualismo e ao menosprezo do trabalho manual em detrimento do intelectual podem ser tidos como exemplos.
Porém também é possível que a escola comprometida com sua função de formação do cidadão enquanto ser atuante e comprometida no estudo de outras realidades, observe também as manifestações da cultura popular representando as sub-culturas, mesmo que estas não estejam evidenciadas pelos livros didáticos. E essa superação poderá se dar através da seleção dos conteúdos trabalhados em sala que valorizem os indivíduos que não estão postos como heróis da história, através da valorização da experiência, do coletivo em detrimento do individual, da linguagem direta e a desvinculação entre aquilo que se escreve ou se diz na escola do que se vivencia em casa.
Nesta perspectiva é possível destacar o posicionamento do “professor-policial” e do “professor-povo”. Sendo assim, o “professor-policial” será aquele que universaliza a cultura burguesa, ou seja, não percebe ou nega a pluralidade das sub-culturas em detrimento dos seus próprios hábitos. No tocante ao caráter ideológico dos conteúdos, esse tipo de professor mostra-se de forma acrítica, aceitando tudo que está posto no livro didático como verdade única. Acaba por trabalhar em sala de aula conteúdos alienantes desvinculados do presente e da realidade presenciada pelo alunos e esse distanciamento resulta no maior desinteresse do alunado. E por fim, esses conteúdos além de alienantes, focam mais a apresentação de datas, fatos isentos de críticas e que por diversas vezes, por não estarem contextualizadas adequadamente torna o assunto incompreensível.
Já para o “professor-povo” há uma valorização da cultura popular, na medida em que se atenta pela captação das manifestações culturais, auxiliando o desenvolvimento da expressão popular, trabalhando sempre na perspectiva de sua própria cultura e não na imposição de uma cultura do grupo dominante. Este professor atua na desmistificação da cultura burguesa rompendo com o sentimento de inferioridade e desenvolvimento, ao passo que ajuda seus alunos a perceber a existência de sub-culturas distintas.
Com relação aos conteúdos ideológicos dos manuais e textos, esse professor dá um enfoque crítico, visando o confronto de textos que representem a cultura burguesa e aqueles que representam a visão popular. Estuda a história da sociedade como um todo, incluindo sempre que possível, sujeitos “excluídos” da história tradicional, como o negro e o índio. Coloca sempre os conteúdos de forma problematizada e não como resposta dogmática e por fim esse professor se preocupa principalmente com a funcionalidade dos conteúdos, buscando trabalhar em sala aquilo que considera útil para a vida cotidiana dos alunos abandonando os assuntos sem relevância.
